domingo, 8 de janeiro de 2017

Morreu Mário Soares
(antes que a memória me traia)

Por duas vezes estive perto dele, em 1976 numa situação bizarra durante a campanha para as eleições legislativas, e em 1998 numa visita que fez à EXPO'98. 

A primeira, em 1976, foi o culminar de uma diatribe do Dr. Soares, candidato a 1º ministro nas eleições legislativas para o I Governo Constitucional, que o PS viria a ganhar.
Na altura era vulgar os partidos realizarem comícios e sessões de esclarecimento dentro das empresas. A situação passa-se no Banco Português do Atlântico, promovida pelo núcleo do PS na Comissão de Trabalhadores de que eu fazia parte (composta por elementos do PS e do MRPP), onde era grande a implantação destes dois partidos. Aproximando-se a hora do evento, os promotores recebem um telefonema da sede do PS na Rua da Emenda, onde a segurança já estava a postos, dizendo que o Dr. Soares ainda não tinha aparecido. Saliente-se que na altura não havia telemóveis, apenas o telefone fixo. Esta agitação/indefinição manteve-se, até que os militantes do PS resolveram deslocar-se para o local da sessão (1º andar) sem saberem onde estava o orador... esperando... e acreditrando num desfecho positivo. Eu, que não era do PS, fiquei nas instalações da Comissão de Trabalhadores (5º andar) um tanto ou quanto divertida com a situação, e satisfeita com a perspectiva de um fiasco. Eis senão quando sinto alguém entrar e... era o Dr. Mário Soares, que resolveu fintar a segurança do PS e descer o Chiado até à Rua do Ouro a pé e sózinho. Limitei-me a acompanhá-lo até ao 1º andar e "entregá-lo" são e salvo aos promotores da sessão de esclarecimento que puderam então respirar de alívio. 
O segundo encontro, em 1998, ocorreu numa visita de Mário Soares ao pavilhão das Ilhas Seichelles e em que a mim, coordenadora geral do protocolo da EXPO'98, me coube a tarefa de o acompanhar, transparente e invisível como compete a quem desempenha tais tarefas. Reportagem no "Diário de Notícias" de 19.06.1998.

Nunca votei Mário Soares e não me arrependo.
Não posso, contudo, deixar de salientar que considero ter sido determinante e fundamental a sua luta pela liberdade e pela democracia, antes do 25 de abril e durante os difíceis tempos do PREC, em que não hesitou em dar o corpo às balas na liderança de uma ampla movimentação de massas que impediu que o país caísse nas mãos de um outro regime totatlitário de inspiração soviética. 
Também o seu papel na desmilitarização dos órgãos de poder, no fim do Conselho da Revolução, no regresso dos militares aos quartéis.
Os rostos da liberdade têm sempre o meu respeito.