domingo, 19 de fevereiro de 2012

A moral proletária II

A propósito da questão da moral proletária e da forma como a directiva Pensar, Agir e Viver como Revolucionário era levada à prática nos diversos órgãos do partido, e devido à posição que eu ocupava na respectiva hierarquia dentro do sector bancário vou referir duas situações que vivi, uma das quais me pesa ainda hoje e da qual me envergonho bastante.
A certa altura passou a haver no Comité dos Bancários uma espécie de falar à boca pequena sobre um determinado camarada, militante anterior ao 25 de Abril, pessoa firme e determinada nas suas convicções, daqueles que nunca viravam a cara à luta. Na altura não percebi nada nem prestei grande atenção, até porque ele era pessoa com quem eu não simpatizava especialmente. Foi então que o secretário do Comité apareceu com a notícia que tinha havido alguns problemas com o dito camarada e que este tinha sido afastado da organização bancária e passado para a organização da residência, o que, na prática, significava uma sanção. Foi deixado no ar um certo suspense e eu fiquei de imediato com a sensação de que havia quem soubesse do que se tinha passado, embora fosse óbvio que a sanção vinha de cima. Note-se que eu era vice-secretária do Comité e não sabia de nada.
Consegui, finalmente, que me fosse dito que o camarada em questão, casado e com 3 ou 4 filhos, tinha "abusado" de uma empregada bastante jovem que vivia em sua casa e que, entre outras coisas, tomava conta dos filhos dele. Uma miúda daquelas que na altura se "ia buscar à terra". O acto tinha sido praticado na casa de família.
Para descrever a outra situação que é mais complicada vou recorrer a nomes fictícios. Os camaradas João (casado) e Maria (solteira), ambos do mesmo do banco, envolvem-se sentimentalmente e a Maria engravida. Note-se que a mulher do João também trabalhava nesse banco. O João mantém, em simultâneo um envolvimento com a camarada Paula (solteira) de outro banco e esta engravida também. Ou seja, o João mantém dois casos extraconjugais, que resultam em duas "namoradas" grávidas ao mesmo tempo. Como o João, a Maria e a Paula eram todos militantes do MRPP o assunto foi discutido e decidido que as duas camaradas grávidas deviam abortar a fim de preservar o casamento, porque era uma situação imoral e porque ele nunca iria assumir as suas responsabilidades. Se elas não aceitassem seriam expulsas. A comunicação da deliberação devia ser feita pelo responsável do banco respectivo, pelo que a mim me calhou a Paula, minha amiga, pessoa com quem eu trabalhava muito. Mas eu nem sequer questionei, cumpri a tarefa e comuniquei-lhe friamente a decisão. Claro que ela disse de caras que nunca iria abortar e que era ela própria que saía do MRPP naquele momento. Isto passou-se em 1976. Deixámos de falar, mesmo de nos cumprimentar. O nosso relacionamento acabou ali naquele momento.
A imagem dela a ouvir a violência da decisão de que eu estava a ser porta-voz nunca me saiu da cabeça.
Ela levou a gravidez em frente e teve a criança. Sei que nos primeiros tempos manteve a ilusão de que iria viver um caso de amor e ser feliz, mas, quando percebeu que o João não queria saber dela nem da gravidez, assumiu plenamente o seu papel de mãe solteira.
A Maria não teve o bebé, era uma pessoa frágil e teve um aborto espontâneo. Quanto ao João nunca mais ouvi falar dele.
O que eu fiz, a frieza com que o fiz, ainda hoje me incomoda. Já tive oportunidade de pedir desculpa, de me retractar perante a Paula mas não fui capaz. Passados muitos anos, ambas já fora do banco, encontrámo-nos casualmente num evento cultural e ela veio ter comigo como se nada tivesse acontecido, até com uma certa excitação e alegria, mas eu não fui capaz de corresponder. Há alguns meses via-a numa loja, abordei-a e conversámos longamente, mas eu continuei a não ser capaz. Acho até que ela já terá esquecido, eu não.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A moral proletária I

Pensar, agir e viver como revolucionários era uma palavra de ordem pela qual os militantes do MRPP deviam pautar a sua conduta moral. A moral proletária, apanágio dos comunistas, devia estar inteiramente subordinada aos interesses da luta de classes aos quais, por sua vez, deviam estar subordinados todos os outros interesses. Os comportamentos relacionados com a moral, com os costumes, não eram uma questão considerada acima da sociedade e das classes sociais, não eram uma consequência do temperamento peculiar dos indivíduos, não eram transversais, mas sim marcas de classe que serviam os interesses de uma determinada classe social. Havia uma moral proletária e uma moral burguesa.
No MRPP eram escondidas todas as relações, por assim dizer, amorosas. Fossem elas namoro, casamento, e principalmente aventuras ou casos. E quando uma destas era descoberta isso era discutido nos órgãos respectivos e tomadas medidas.
Por exemplo eu, membro do Comité dos Bancários era casada com um militante membro de outra organização. Ambas as organizações funcionavam na mesma sede, as respectivas salas eram no mesmo corredor. Porém, muito poucas pessoas sabiam que nós éramos casados. Não havia o hábito de um ficar à espera do outro nem de, numa conversa de corredor, falar dos filhos. Se alguém nos "apanhasse" diriam logo que nos estávamos a desviar dos objectivos primordiais da luta de classes.
É óbvio que havia namoros que começavam, mas isso era sempre escondido. Dentro das sedes as pessoas faziam de conta…
Claro que havia casos, aventuras, flirts… muitos. Tudo escondido. Era tudo uma grande hipocrisia. Era a defesa da fachada. A nível das hierarquias máximas então era lindo ver "a família feliz", marido mulher, filhos todos sentadinhos no trono dos comícios (e só esses "podiam ter" família), quando, à boca pequena, se falava que no dia-a-dia tudo era diferente. É bem velhinha a história do patrão que tem um caso com a secretária! Quem mais proclamava, era quem mais falhava.
Tal como o assunto dos automóveis. Os bancários eram tidos por ganharem bem, terem bons carros, etc. A classe operária não tinha nada disso e os dirigentes da classe operária tinham de estar ao nível dela. Assim, o secretário-geral deslocava-se num Mini. Mas, às vezes requisitava o automóvel topo de gama de um bancário para certos encontros.
E, como não podia deixar de ser, no MRPP, como na sociedade em geral, a mulher era sempre mais visada.
Pensar, agir e viver como revolucionários foi uma decisão do Comité Central do MRPP (na altura Comité Lenine) datada de Outubro de 1972, que teve por base um caso extraconjugal nas fileiras do Movimento: "…um quadro do nosso Movimento entreteve relações pessoais ínvias com uma camarada casada…" e "… reciprocamente, a camarada em questão entreteve com ele o mesmo tipo de relações íntimas tortuosas…".
Não quero, de forma alguma, defender ou apoiar a manutenção de relações extraconjugais. O que não aceito é o facto de serem definidas com o recurso a adjectivos que me fazem lembrar os tempos em que o adultério era crime, mas em que apenas as mulheres eram punidas. Aliás, para o Comité Central do MRPP não interessava a situação matrimonial do camarada homem, apenas levando em consideração que a camarada mulher era casada.
O mesmo tipo de moral retrógrada, castradora e machista muitas vezes defendida também pela Igreja: "a mulher tem de estar sempre muito lavada", foram a palavras de um padre na celebração de um casamento a que eu assisti já no limiar do século XXI.
Quanto a este caso, o Comité Central propôs a aplicação de uma sanção nunca inferior à destituição do cargo, sendo da competência do escalão respectivo o levá-la à prática.
Viviam-se tempos de clandestinidade em que os nomes dos envolvidos não podiam ser tornados públicos, nem sequer no seio do MRPP.
E aqui fica uma pergunta, será que a sanção aplicada foi igual para o homem e para a mulher?
Talvez com a leitura do post seguinte "A moral proletária II" em que relatarei alguns casos concretos em que participei se possa antecipar uma resposta a esta pergunta.