sábado, 21 de março de 2009

O desamor

O meu desamor pelo MRPP começou no dia em que pela primeira vez fiquei cara a cara com o Arnaldo Matos. Foi em fins de 1977.
O Comité Central tinha decido que a editora Vento de Leste iria publicar o 5º volume das Obras Escolhidas de Mao Tsé Tung. O livro, inédito, deveria sair por volta de 7 de Novembro como homenagem aos 60 anos da Revolução de Outubro.
Alguns dias antes, estando já o livro no prelo, a empresa que estava a imprimi-lo exigiu que o MRPP (nessa altura já PCTP/MRPP) apresentasse uma garantia bancária de 1200 contos para que a edição fosse liberada e os livros distribuídos.
E quem melhor que os camaradas bancários poderia resolver o problema?
Fui então convocada, às 2 da manhã de um Domingo, para estar às 10 da manhã desse mesmo Domingo na Sede Central do Partido na Av. Álvares Cabral. A convocatória foi feita a dois camaradas, ao secretário do Comité dos Bancários e a mim, vice-secretária do comité e secretária da célula do BPA, que acabara de terminar um mandato de 2 anos na Comissão de Trabalhadores do BPA. Depois de 2 longas horas de espera na rua fomos conduzidos a uma sala onde estava o Arnaldo Matos e outro membro do Comité Central. Feita uma breve exposição da situação foi-nos dito que a nós como bancários caberia a resolução do problema, e a mim foi-me especificamente dada a tarefa de, no dia seguinte, junto da Secção de Garantias do BPA, obter a dita garantia bancária de 1200 contos. Tarefa fácil...
No BPA o MRPP tinha uma boa implantação. Tínhamos desenvolvido um trabalho importante nas Comissões de Trabalhadores e Sindical em aliança com o PS e conseguido vitórias muito significativas que nos tinham granjeado um grande apoio. Tínhamos um número considerável de delegados sindicais e os nossos militantes gozavam da simpatia geral dos trabalhadores. O ambiente era favorável ao desenvolvimento do nosso trabalho, porém... havia algumas secções que nos eram hostis. Havia outros partidos e outras convicções. E havia, apesar de tudo, as hierarquias, as normas bancárias. Ora, a secção de Garantias era no BPA aquilo a que se chamava um feudo da UDP. Tarefa fácil...
Ao ser incumbida de tal tarefa vi, de repente, "o mar ficar mais alto do que a terra", porém apenas disse que na secção de Garantias do BPA havia dois delegados sindicais UDPides (sic) e que iria ser difícil tratar do assunto sem que eles soubessem. Era a época do controlo operário; os delegados sindicais e as subcomissões de trabalhadores tinham acesso a toda a documentação (propostas, listagens, etc.).
O Arnaldo Matos interrompeu-me imediata e abruptamente, levantou-se, deu um valente murro na mesa e berrando que eu estava contra a linha do partido e que o meu objectivo era impedir a saída do livro, mandou-nos sair da sala, que ele próprio iria resolver a questão. De facto resolveu e o livro saiu a tempo e horas. Fê-lo recorrendo a amigos/conterrâneos, altamente colocados, pessoas cuja conotação com o “antigamente” era bem conhecida... Pessoas a quem convinha, naqueles tempos conturbados em que os órgãos dos trabalhadores tinham muito poder, serem vistas ao lado de quem mais dava nas vistas. Claro que essas pessoas nunca souberam do que se passara entre mim e o Arnaldo Matos e, numa de cumplicidade asquerosa, vieram confidenciar-me que tinham feito um favor ao Arnaldo Matos e que ele até lhes tinha enviado exemplares do livro como reconhecimento.
Ainda hoje (2009) lamento as horas que não dormi naquele Domingo de manhã e as 2 horas de frio à porta da sede do MRPP.
Na altura o que pensei foi mesmo “ovos que eu ponha nunca mais comes”. Ainda hoje quando penso neste episódio é exactamente esta a frase que me ocorre. Para mim foi o princípio do desamor. Poucos meses depois tudo deixou de fazer sentido e abandonei o MRPP. Uns tempos depois (meados de 1978) houve uma cisão na organização regional de Lisboa, com a saída/expulsão de cerca de 200 militantes. A influência do MRPP caiu a pique até àquilo que é hoje em dia.

quarta-feira, 18 de março de 2009

A primeira reunião

A primeira reunião partidária a que fui realizou-se em Novembro/Dezembro de 1974, cerca de 6 meses depois de eu ter começado a simpatizar, a participar em certas actividades e a defender as posições do MRPP (foi uma espécie de período experimental). No final de um comício no Pavilhão dos Desportos, um colega e amigo do BPA veio ter comigo e convidou-me para uma reunião em casa dele. Foi a primeira reunião do núcleo do MRPP no BPA. Nessa reunião, para além da pessoa que me convidou e que já era quadro do MRPP desde a sua fundação em 1970 estiveram presentes mais quatro trabalhadores do BPA, ao todo cinco pessoas (eu e mais 4 homens), sendo 3 dos serviços centrais e 2 de balcões.
Em todas as reuniões do MRPP em primeiro lugar discutia-se sempre a situação política actual/medidas a tomar. Depois discutia-se a situação a nível da empresa/sector, as formas de luta necessárias, questões de organização e sempre as medidas a tomar. Era imperioso divulgar a linha do partido e recrutar simpatizantes. Era fundamental eleger delegados sindicais, comissões sindicais e de trabalhadores, fazer alianças para combater os “revisionistas” que estavam no sindicato e seus representantes no banco.
Como o MRPP ainda não tinha sedes, durante algum tempo as reuniões do núcleo do BPA realizaram-se semanalmente nessa mesma casa em Campo de Ourique e foram sendo recrutados mais camaradas. Depois passámos a reunir na sede de Alcântara no Largo de Alcântara e mais tarde na sede do Alto do Pina na Rua Barão de Saborosa. Nessa altura já tinha sido constituída a célula do BPA. O responsável pelo núcleo foi eleito secretário (já não me lembro se foi mesmo eleito ou se foi assim e pronto, porque ele era o mais antigo e o mais responsável) e todos passámos a ter um pseudónimo. Nesses primórdios em que havia pouca gente organizada os pseudónimos eram escolhidos de acordo com a ordem alfabética da inicial, ou seja, o primeiro do sector bancário organizado tinha um pseudónimo começado por A, o segundo por B e assim sucessivamente. A mim coube-me um pseudónimo começado por M.
Mais tarde, já em 1975, foi ocupado o edifício da Calçada do Combro – a sede da Bica – onde foram instaladas todas as células do sector dos serviços, o Comité do Concelho de Lisboa, o Departamento Sindical e a distribuição do Luta Popular. Nessa sede cada sector tinha a sua própria sala pela qual era responsável, cabendo-lhe também uma parte da responsabilidade pela gestão da sede – limpeza, decoração, segurança. A Bica era a nossa segunda casa. Era lá que passávamos a maior parte do tempo. Era lá que tudo começava e era lá que tudo acabava. Foi na Bica que vivi um dos momentos mais “perigosos” da minha militância no MRPP. Foi em 28 de Maio de 1975, dia em que o COPCON assaltou simultaneamente todas as sedes do MRPP, em que foram presas mais de 500 pessoas e em que houve algumas que escaparam por um triz. Mas isso fica para outro post.

quarta-feira, 11 de março de 2009

O 11 de Março de 1975

Não podia mesmo deixar passar em claro o dia 11 de Março. Sim, o dia 11 de Março é também o dia do meu aniversário. Faço hoje 60 anos. Bonita idade? Porta de entrada para a porta de saída? Pois, o facto é que nunca consegui conhecer ninguém que fizesse anos neste dia. Ao longo dos anos, das fases da lua, de outras coisas que determinam os nascimentos, o dia 11 de Março deve ter sido muito pouco produtivo. E olhem que eu passei por muitas tarefas que me permitiam ter acesso a listagens com dados de identificação. Os meus olhos percorriam sempre as datas de nascimento à procura do dia 11 de Março e, sistematicamente, nada. Porém, quanto a eventos, bons e maus, já não se pode dizer o mesmo. Eu já fui a dois casamentos no dia dos meus anos, um em 1970 e outro em 1995. No de 1970, grávida, tive um acidente de automóvel a caminho da igreja. Nada de grave, apenas um pontitos no sobrolho. Numa outra vez, ao regressar do habitual jantar com a família, uma pedra grandalhona foi levantada por um carro que passou por mim e zás – foi parar em cima do meu carro (grupo óptico e guarda-lamas pró boneco). Foi bom não ter caído no pára-brisas pois podia ter aterrado numa das cabeças que iam dentro do carro. Isto para não falar daqueles pequenos “je ne sais quoi” que põem as pessoas a discutir nas reuniões familiares e que durante algum tempo tiveram lugar cativo nos almoços ou jantares dos meus anos. Alargando horizontes não podemos esquecer os atentados de 11 de Março de 2004 em Madrid com cerca de 200 mortos e 1700 feridos. Também todos os 11 de Março as nossas ruas reluzem com os polícias vestidos a rigor, com as fardas de festa, galões, cordões e medalhas ao peito. É que a 11 de Março celebra-se o dia da PSP. Mas vamos agora ao principal, ao que constitui a essência deste post: o 11 de Março de 1975 a que uns chamaram golpe seguido de um contragolpe e outros inventona, ou seja, um suposto golpe das forças de direita que legitimaria um contragolpe de esquerda destinado a repor a legalidade revolucionária. O que aconteceu foi o reforço do poder do PCP nos governos e chefias militares, a perseguição desenfreada liderada pelo COPCON de Otelo Saraiva de Carvalho a tudo e todos os que “punham em causa” as conquistas do 25 de Abril. Foi o PREC (período revolucionário em curso), foi a época das nacionalizações, do controlo operário, da reforma agrária, das ocupações, das expropriações, foi o caminhar até ao “Verão Quente de 75” em que largas camadas da população se levantaram contra este novo totalitarismo, culminando no 25 de Novembro de 1975 com a definitiva derrota do PCP que deixou de ser dono e senhor da revolução.
Nestes primórdios de 1975 a minha entrega ao MRPP era já inteira e indiscutível. Contudo a minha vida pessoal estava numa fase de mudança, um caos. No dia 11 de Março de 1975 aproveitei a hora de almoço para ir procurar uma casa para alugar. Foi em Benfica, num restaurante da Av. Gomes Pereira, que ouvi a notícia na rádio. O almoço acabou imediatamente e corri para o meu local de trabalho, a dependência do Saldanha do BPA. Nessa tarde os bancos já não abriram. Por toda a cidade os activistas iam-se concentrando e surgiram as manifestações espontâneas. Ninguém sabia o que ia acontecer e a actividade política fervia. Os bancos ficaram fechados alguns dias e a 14 de Março de 1975 saiu o decreto da nacionalização da banca. No meio de toda esta efervescência, no dia 13 de Março de 1975, o MRPP realizou um Comício no Pavilhão dos Desportos. A militância, o empolgamento, a combatividade costumeiros. Bandeiras esvoaçando, palavras de ordem, o pavilhão cheio. O último orador foi o Fernando Rosas, membro do Comité Central. Sim, o mesmo que hoje é deputado do Bloco de Esquerda e cuja oratória é bem conhecida. Também então era assim, grande e empolgante era a sua capacidade de liderança de massas. Nesses tempos havia sempre ameaças da CIA, da NATO, etc. Ora, o Fernando Rosas terminou o seu discurso dizendo que estava fundeada no Tejo uma esquadra da NATO que se preparava para invadir Lisboa, e que a única forma de o povo o impedir era com a ocupação dos locais de trabalho. Conclamou, portanto, todos a que saíssem do Pavilhão dos Desportos e fossem ocupar os seus locais de trabalho. Situando, devia ser para além da meia-noite. Hoje pode parecer um despropósito, mas naquela altura ele foi levado muito a sério. Eu e as pessoas que estavam comigo não fomos excepção e nem hesitámos em cumprir a ordem. Lembro-me que senti medo. Que pensei nos meus filhos, na minha vida, mas segui em frente. Não me lembro como, mas sei que fui para o meu local de trabalho, a dependência do Saldanha do BPA, eu mais uns quantos que lá trabalhavam, todos militantes ou simpatizantes do MRPP. O mais provável é termos telefonado ao gerente para ele ir abrir a porta pois lembro-me de, já madrugada, ele também estar lá presente. Daquela dúzia de pessoas eu era a única que tinha verdadeiras responsabilidades partidárias, portanto era a mim que cabia a liderança. Lembro-me de aos porquês do gerente ter respondido que se tratava de defender a independência nacional e que o objectivo final era a ditadura do proletariado, lembro-me da cara de susto dele. Não era uma pessoa adepta do anterior regime e não gostava do PCP, mas olhou para mim com uma cara... A verdade é que ele passou a noite connosco numa espera que não levou a nada. Tudo voltou ao mesmo quando amanheceu, o banco fechado até à nacionalização, manifestações, comícios, propaganda e uma esquadra da NATO que nunca invadiu Lisboa.

segunda-feira, 9 de março de 2009

O enamoramento

Antes do 25 de Abril tudo era diferente. De um lado estavam os trabalhadores a lutar por aquilo que achavam justo, com os seus líderes, activistas, delegados e dirigentes sindicais sem rótulos partidários, e do outro o poder reaccionário e fascista que reprimia. Mas, a seguir ao dia 25 de Abril de 1974 - não ao 25 de Abril acontecimento, mas sim ao 25 de Abril data – para alguns tudo aquilo que era justo passou a ser injusto. No dia 26 alguns desses activistas que dinamizavam e dirigiam a luta dos trabalhadores deram-se a conhecer como gente do PCP e, pura e simplesmente, passaram a travar a luta e a hostilizar os trabalhadores a quem o 25 de Abril tinha dado mais forças para seguir em frente. A muitos dos que até ao dia 24 de Abril de 1974 eram considerados como antifascistas eles passaram chamar reaccionários. Aquilo que se defendia deixou de se poder defender porque punha em causa uma série de hipotéticas conquistas revolucionárias, havia que trabalhar mais e melhor “para a nação”. Eu que era uma pessoa “amiga” e “antifascista”, passei a ser considerada uma conservadora, uma reaccionária, uma fascista. Foi um corte de relações abrupto, efectivo e violento. Pessoas com quem tinha relações de camaradagem e amizade não se limitaram a deixar de falar comigo, mas também passaram a hostilizar-me activamente.
Foi então que as águas se dividiram e que comecei a perceber que havia quem não tinha mudado, quem no dia 26 continuava a defender as mesmas coisas que defendia no dia 24, coisas que eu considerava justas. Nesses dias que se seguiram ao dia 25 de Abril de 1974 comecei a ver que as únicas pessoas que defendiam aquilo que eu achava correcto e que sabiam como lutar por isso eram do MRPP, isto quer a nível do banco, quer a nível do Sindicato dos Bancários. Os meus horizontes pouco se tinham alargado ainda para fora do âmbito estritamente laboral. Apenas não compreendia a razão de os presos políticos não terem sido libertados logo no mesmo dia. Só o foram 3 ou 4 dias depois. Contudo, no “célebre primeiro 1º de Maio de liberdade” eu já tinha perdido as ilusões e não fui àquela famosa manifestação a que todos chamam de unidade.
Os simpatizantes e militantes do PCP, que antes actuavam sob a capa do antifascismo, deram-se a conhecer da pior forma, a da oposição e boicote a tudo quanto era reivindicação dos trabalhadores. Deram-se a conhecer também outros que, apesar de incluídos nesse grande saco do antifascismo pré-25 de Abril, mantiveram as suas posições em defesa das reivindicações e lutas dos trabalhadores. Eram sobretudo os do MRPP saindo da clandestinidade a que o regime obrigava. No BPA havia alguns militantes do MRPP nestas circunstâncias. Havia também quem pertencesse a outros pequenos partidos e que pendia ora para um lado ora para outro. Nesses primórdios do pós 25 de Abril do PS pouco ou nada havia e do PPD mesmo nada. Claro que pouco tempo depois e muito rapidamente o PS cresceu e O PPD também foi aparecendo. Isto a nível de locais de trabalho e de reivindicações laborais. Foram-se formando alianças que conseguiram esmagar, no sector bancário, todas as tentativas de implantação desta nova forma de totalitarismo que se arvorava defensor dos direitos dos trabalhadores mas que lhes cerceava a liberdade e o poder reivindicativo, o chamado social-fascismo, socialista nas palavras e fascista nos actos.
É óbvio que foi pela primeira linha de actuação que comecei a sentir-me atraída. Eu não conseguia compreender por que razão em dois dias eu tinha passado de “amiga” e “antifascista” a “reaccionária” e “fascista”. Por que razão é que aquilo que eu defendia no dia 24 de Abril, que os trabalhadores do BPA ganhavam pouco e deviam ser aumentados, que as senhas de almoço deviam ser para toda a gente, por que razão no dia 26 de Abril tudo isso passara a ser injusto? Por que razão no dia 26 de Abril, eu passei a ser considerada reaccionária por continuar a defender a mesma coisa que defendia no dia 24?
Comecei a falar e a andar com as pessoas do BPA que eram simpatizantes do MRPP, comecei a ir aos comícios, a sessões de esclarecimento e a manifestações, talvez até a fazer pequenas tarefas, até que um dia me convidaram para uma reunião.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Organização

Nas empresas, nos sectores de actividade (banca, seguros, telecomunicações, etc.), nos bairros, freguesias ou concelhos o MRPP estava organizado em núcleos, células e comités - por ordem hierárquica. O núcleo era composto pelos simpatizantes mais activos e a célula era formada pelos militantes. O comité era a estrutura de topo sectorial, formado por militantes que representavam as diversas células que dirigia. Havia os comités de sector, os comités de concelho e os comités regionais. Havia também grandes empresas consideradas estratégicas organizadas em células autónomas (correios, telefones, transportes). O órgão máximo, do qual dependiam todos os outros, era o Comité Central. Havia organizações específicas para os estudantes, a FEML (Federação dos Estudantes Marxistas-Leninistas), para a Forças Armadas, a RPAC (Resistência Popular Anti-Colonial) e para certos sectores, como a Cultura e Departamento de Imprensa que dependiam directamente do Comité Central.
Tomemos o sector bancário como exemplo. Em cada banco havia um núcleo composto pelos simpatizantes e uma célula composta pelos militantes, que também participavam no núcleo. A célula era dirigida por um secretário, que também dirigia as reuniões do núcleo e, na sua ausência por um vice-secretário. Ambos eram eleitos em reunião de célula. Não havia voto secreto. Os membros da célula não eram eleitos mas sim cooptados (escolhidos) pela própria célula. Quem dirigia a actividade na banca era o comité dos bancários que era composto pelos secretários das células, por alguns vice-secretários ou por outros militantes que o justificassem. A participação no comité dos bancários era por cooptação. O secretário e o vice-secretário do comité dos bancários, também eleitos pelo próprio comité, tinham assento por inerência no comité imediatamente superior que, no caso concreto, era o comité do concelho de Lisboa.
Todos os simpatizantes que faziam parte dos núcleos (havia simpatizantes que não faziam parte do núcleo: os menos activos, menos disponíveis ou menos fiáveis) e todos os militantes tinham um pseudónimo, ninguém era conhecido pelo próprio nome, muito menos pelo apelido. O uso pseudónimo seria uma questão de segurança, pois em caso de ataque ou perseguição, os “predadores” não conseguiriam identificar as “presas”. Mas era também uma postura. Dentro da organização os homens e mulheres eram apenas os Manéis e as Marias e mais nada. Supostamente não "havia" doutores nem operários... eram todos iguais. Toda a sua carga pessoal ficava de fora, não tinha importância nem podia nunca ser invocada. No MRPP partia-se do princípio que não havia lugar para a vida pessoal de cada um. Pelo menos essa era a teoria...

Entrar para o MRPP

Entrar, como militante, para um partido como o MRPP não era como entrar para os partidos ditos burgueses, o PS, o PPD (PSD) ou CDS.
Os procedimentos para ser militante de um partido como o PS não seriam muito diferentes dos procedimentos para ingressar num clube de futebol ou numa qualquer colectividade. Preenchia-se uma proposta, com um ou vários proponentes, que depois ia a despacho numa reunião de Direcção, podendo ou não ser aprovada. Numa colectividade, é possível inscrever-se o filho que acabou de nascer; num partido dito burguês, basta que se declare aceitar os estatutos e programa do partido e se pague uma quota.
Ora, isso era impensável num partido como o MRPP, talvez mesmo até como o PCP. A entrada para o partido não era um processo burocrático, mas sim um processo meramente político.
No MRPP nenhuma pessoa entrava sem primeiro ter dado provas, ou seja, sem que a sua prática e o seu comportamento tivessem demonstrado que era guiada por uma linha de pensamento que estava de acordo com as linhas do partido e que era capaz de se entregar plenamente à tarefa de levar à prática esses ideais, relegando tudo o resto para segundo plano.
Entrar para um partido como o MRPP era como um casamento. Normalmente, as pessoas não se casam no dia em que se conhecem. As pessoas sentem-se atraídas, namoram, ficam noivas e depois casam. E, muitas vezes divorciam-se - foi o que aconteceu comigo no que diz respeito ao MRPP.
No MRPP havia simpatizantes, e havia militantes. Os simpatizantes eram aqueles que apoiavam o MRPP, que compravam semanalmente o jornal “Luta Popular”, que poderiam eventualmente fazer algumas tarefas simples a nível de locais de trabalho ou bairros, ir a algumas reuniões e contribuir com fundos, que engrossavam as manifestações e enchiam os comícios, mas, na sua esmagadora maioria não tinham vínculos nem obrigações de maior. Ser militante já não era para qualquer um. Não era chegar a uma sede ou junto de um outro militante e dizer “gosto do MRPP e quero inscrever-me”. Era preciso demonstrar que, quer na teoria quer na prática, aquela era a sua linha política, que a defenderia a todo o custo e que sempre agiria de acordo com ela. Um militante tinha também a obrigação de pagar uma quota mensal equivalente a um dia de salário, de participar em reuniões e de estar sempre disponível, custasse o que custasse, para todo e qualquer chamado.
No MRPP não havia fichas de inscrição nem ficheiros de militantes. Pelo menos, nunca vi nada disso....