domingo, 8 de janeiro de 2017

Morreu Mário Soares
(antes que a memória me traia)

Por duas vezes estive perto dele, em 1976 numa situação bizarra durante a campanha para as eleições legislativas, e em 1998 numa visita que fez à EXPO'98. 

A primeira, em 1976, foi o culminar de uma diatribe do Dr. Soares, candidato a 1º ministro nas eleições legislativas para o I Governo Constitucional, que o PS viria a ganhar.
Na altura era vulgar os partidos realizarem comícios e sessões de esclarecimento dentro das empresas. A situação passa-se no Banco Português do Atlântico, promovida pelo núcleo do PS na Comissão de Trabalhadores de que eu fazia parte (composta por elementos do PS e do MRPP), onde era grande a implantação destes dois partidos. Aproximando-se a hora do evento, os promotores recebem um telefonema da sede do PS na Rua da Emenda, onde a segurança já estava a postos, dizendo que o Dr. Soares ainda não tinha aparecido. Saliente-se que na altura não havia telemóveis, apenas o telefone fixo. Esta agitação/indefinição manteve-se, até que os militantes do PS resolveram deslocar-se para o local da sessão (1º andar) sem saberem onde estava o orador... esperando... e acreditrando num desfecho positivo. Eu, que não era do PS, fiquei nas instalações da Comissão de Trabalhadores (5º andar) um tanto ou quanto divertida com a situação, e satisfeita com a perspectiva de um fiasco. Eis senão quando sinto alguém entrar e... era o Dr. Mário Soares, que resolveu fintar a segurança do PS e descer o Chiado até à Rua do Ouro a pé e sózinho. Limitei-me a acompanhá-lo até ao 1º andar e "entregá-lo" são e salvo aos promotores da sessão de esclarecimento que puderam então respirar de alívio. 
O segundo encontro, em 1998, ocorreu numa visita de Mário Soares ao pavilhão das Ilhas Seichelles e em que a mim, coordenadora geral do protocolo da EXPO'98, me coube a tarefa de o acompanhar, transparente e invisível como compete a quem desempenha tais tarefas. Reportagem no "Diário de Notícias" de 19.06.1998.

Nunca votei Mário Soares e não me arrependo.
Não posso, contudo, deixar de salientar que considero ter sido determinante e fundamental a sua luta pela liberdade e pela democracia, antes do 25 de abril e durante os difíceis tempos do PREC, em que não hesitou em dar o corpo às balas na liderança de uma ampla movimentação de massas que impediu que o país caísse nas mãos de um outro regime totatlitário de inspiração soviética. 
Também o seu papel na desmilitarização dos órgãos de poder, no fim do Conselho da Revolução, no regresso dos militares aos quartéis.
Os rostos da liberdade têm sempre o meu respeito.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

A moral proletária II

A propósito da questão da moral proletária e da forma como a directiva Pensar, Agir e Viver como Revolucionário era levada à prática nos diversos órgãos do partido, e devido à posição que eu ocupava na respectiva hierarquia dentro do sector bancário vou referir duas situações que vivi, uma das quais me pesa ainda hoje e da qual me envergonho bastante.
A certa altura passou a haver no Comité dos Bancários uma espécie de falar à boca pequena sobre um determinado camarada, militante anterior ao 25 de Abril, pessoa firme e determinada nas suas convicções, daqueles que nunca viravam a cara à luta. Na altura não percebi nada nem prestei grande atenção, até porque ele era pessoa com quem eu não simpatizava especialmente. Foi então que o secretário do Comité apareceu com a notícia que tinha havido alguns problemas com o dito camarada e que este tinha sido afastado da organização bancária e passado para a organização da residência, o que, na prática, significava uma sanção. Foi deixado no ar um certo suspense e eu fiquei de imediato com a sensação de que havia quem soubesse do que se tinha passado, embora fosse óbvio que a sanção vinha de cima. Note-se que eu era vice-secretária do Comité e não sabia de nada.
Consegui, finalmente, que me fosse dito que o camarada em questão, casado e com 3 ou 4 filhos, tinha "abusado" de uma empregada bastante jovem que vivia em sua casa e que, entre outras coisas, tomava conta dos filhos dele. Uma miúda daquelas que na altura se "ia buscar à terra". O acto tinha sido praticado na casa de família.
Para descrever a outra situação que é mais complicada vou recorrer a nomes fictícios. Os camaradas João (casado) e Maria (solteira), ambos do mesmo do banco, envolvem-se sentimentalmente e a Maria engravida. Note-se que a mulher do João também trabalhava nesse banco. O João mantém, em simultâneo um envolvimento com a camarada Paula (solteira) de outro banco e esta engravida também. Ou seja, o João mantém dois casos extraconjugais, que resultam em duas "namoradas" grávidas ao mesmo tempo. Como o João, a Maria e a Paula eram todos militantes do MRPP o assunto foi discutido e decidido que as duas camaradas grávidas deviam abortar a fim de preservar o casamento, porque era uma situação imoral e porque ele nunca iria assumir as suas responsabilidades. Se elas não aceitassem seriam expulsas. A comunicação da deliberação devia ser feita pelo responsável do banco respectivo, pelo que a mim me calhou a Paula, minha amiga, pessoa com quem eu trabalhava muito. Mas eu nem sequer questionei, cumpri a tarefa e comuniquei-lhe friamente a decisão. Claro que ela disse de caras que nunca iria abortar e que era ela própria que saía do MRPP naquele momento. Isto passou-se em 1976. Deixámos de falar, mesmo de nos cumprimentar. O nosso relacionamento acabou ali naquele momento.
A imagem dela a ouvir a violência da decisão de que eu estava a ser porta-voz nunca me saiu da cabeça.
Ela levou a gravidez em frente e teve a criança. Sei que nos primeiros tempos manteve a ilusão de que iria viver um caso de amor e ser feliz, mas, quando percebeu que o João não queria saber dela nem da gravidez, assumiu plenamente o seu papel de mãe solteira.
A Maria não teve o bebé, era uma pessoa frágil e teve um aborto espontâneo. Quanto ao João nunca mais ouvi falar dele.
O que eu fiz, a frieza com que o fiz, ainda hoje me incomoda. Já tive oportunidade de pedir desculpa, de me retractar perante a Paula mas não fui capaz. Passados muitos anos, ambas já fora do banco, encontrámo-nos casualmente num evento cultural e ela veio ter comigo como se nada tivesse acontecido, até com uma certa excitação e alegria, mas eu não fui capaz de corresponder. Há alguns meses via-a numa loja, abordei-a e conversámos longamente, mas eu continuei a não ser capaz. Acho até que ela já terá esquecido, eu não.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A moral proletária I

Pensar, agir e viver como revolucionários era uma palavra de ordem pela qual os militantes do MRPP deviam pautar a sua conduta moral. A moral proletária, apanágio dos comunistas, devia estar inteiramente subordinada aos interesses da luta de classes aos quais, por sua vez, deviam estar subordinados todos os outros interesses. Os comportamentos relacionados com a moral, com os costumes, não eram uma questão considerada acima da sociedade e das classes sociais, não eram uma consequência do temperamento peculiar dos indivíduos, não eram transversais, mas sim marcas de classe que serviam os interesses de uma determinada classe social. Havia uma moral proletária e uma moral burguesa.
No MRPP eram escondidas todas as relações, por assim dizer, amorosas. Fossem elas namoro, casamento, e principalmente aventuras ou casos. E quando uma destas era descoberta isso era discutido nos órgãos respectivos e tomadas medidas.
Por exemplo eu, membro do Comité dos Bancários era casada com um militante membro de outra organização. Ambas as organizações funcionavam na mesma sede, as respectivas salas eram no mesmo corredor. Porém, muito poucas pessoas sabiam que nós éramos casados. Não havia o hábito de um ficar à espera do outro nem de, numa conversa de corredor, falar dos filhos. Se alguém nos "apanhasse" diriam logo que nos estávamos a desviar dos objectivos primordiais da luta de classes.
É óbvio que havia namoros que começavam, mas isso era sempre escondido. Dentro das sedes as pessoas faziam de conta…
Claro que havia casos, aventuras, flirts… muitos. Tudo escondido. Era tudo uma grande hipocrisia. Era a defesa da fachada. A nível das hierarquias máximas então era lindo ver "a família feliz", marido mulher, filhos todos sentadinhos no trono dos comícios (e só esses "podiam ter" família), quando, à boca pequena, se falava que no dia-a-dia tudo era diferente. É bem velhinha a história do patrão que tem um caso com a secretária! Quem mais proclamava, era quem mais falhava.
Tal como o assunto dos automóveis. Os bancários eram tidos por ganharem bem, terem bons carros, etc. A classe operária não tinha nada disso e os dirigentes da classe operária tinham de estar ao nível dela. Assim, o secretário-geral deslocava-se num Mini. Mas, às vezes requisitava o automóvel topo de gama de um bancário para certos encontros.
E, como não podia deixar de ser, no MRPP, como na sociedade em geral, a mulher era sempre mais visada.
Pensar, agir e viver como revolucionários foi uma decisão do Comité Central do MRPP (na altura Comité Lenine) datada de Outubro de 1972, que teve por base um caso extraconjugal nas fileiras do Movimento: "…um quadro do nosso Movimento entreteve relações pessoais ínvias com uma camarada casada…" e "… reciprocamente, a camarada em questão entreteve com ele o mesmo tipo de relações íntimas tortuosas…".
Não quero, de forma alguma, defender ou apoiar a manutenção de relações extraconjugais. O que não aceito é o facto de serem definidas com o recurso a adjectivos que me fazem lembrar os tempos em que o adultério era crime, mas em que apenas as mulheres eram punidas. Aliás, para o Comité Central do MRPP não interessava a situação matrimonial do camarada homem, apenas levando em consideração que a camarada mulher era casada.
O mesmo tipo de moral retrógrada, castradora e machista muitas vezes defendida também pela Igreja: "a mulher tem de estar sempre muito lavada", foram a palavras de um padre na celebração de um casamento a que eu assisti já no limiar do século XXI.
Quanto a este caso, o Comité Central propôs a aplicação de uma sanção nunca inferior à destituição do cargo, sendo da competência do escalão respectivo o levá-la à prática.
Viviam-se tempos de clandestinidade em que os nomes dos envolvidos não podiam ser tornados públicos, nem sequer no seio do MRPP.
E aqui fica uma pergunta, será que a sanção aplicada foi igual para o homem e para a mulher?
Talvez com a leitura do post seguinte "A moral proletária II" em que relatarei alguns casos concretos em que participei se possa antecipar uma resposta a esta pergunta.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

As alianças

Pouco tempo antes do 25 de Abril de 1974 os trabalhadores do BPA tinham apresentado à Administração um Caderno Reivindicativo em volta do qual havia numa grande união e disposição para lutar e que contemplava, entre outras, coisas como um subsídio de almoço igual para todos ou um subsídio de Natal sem restrições nem cortes. A luta era liderada por uma suposta "frente anti-fascista" que congregava a maioria dos trabalhadores, mas que, sem dúvida, sobrevivia à custa da experiência dos que tinham o apoio de uma organização, embora na clandestinidade. No caso vertente, o MRPP e PCP, e que logo no dia 26 de Abril de 1974 se mostraram. Para os trabalhadores o 25 de Abril de 1974 tinham sido um estímulo e a convicção de que essa luta seria vitoriosa. Mas isso não pensavam os comunistas que tentaram abortar a reivindicação e hostilizaram todos os que queriam seguir em frente, apelidando-os de agentes do capitalismo, de estarem a fazer o jogo da reacção, de fascistas e reaccionários. Eu recebi muitos desses "elogios".
A luta pelo caderno reivindicativo continuou sempre com mais força, com maiores adesões e também com grandes tentativas de boicote por parte da direcção Sindicato dos Bancários, maioritariamente afecta ao PCP, cujos representantes sempre estiveram em minoria dentro do BPA. Realizaram-se regularmente grandes plenários de trabalhadores dentro das instalações do banco, plenários esses que muitas vezes se arrastaram pela noite/madrugada dentro. Lembro-me de, numa dessas reuniões, a tentativa de boicote ter chegado ao ponto de os dirigentes do Sindicato dos Bancários terem recorrido à Intersindical a fim de conseguirem infiltrar, já noite, no plenário de trabalhadores que decorria dentro das instalações do banco na Rua do Ouro um seu destacado membro, que mais tarde haveria de chegar a secretário-geral da Intersindical e do PCP, Carlos Carvalhas. Obviamente foi uma tentativa infrutífera, imediatamente denunciada pelos colegas que trabalhavam na portaria, que impediram a entrada de estranhos nas instalações do banco.
A nível mais geral da banca lutava-se pela aprovação de uns estatutos democráticos do Sindicato dos Bancários e pela eleição de uma nova direcção. Depois de muitas lutas, muitas reuniões, bastantes ameaças e intimidação, em 30 de Junho de 1975 foram aprovados os novos estatutos do Sindicato numa Assembleia Geral histórica realizada no Pavilhão da Luz (cercado por elementos do Sindicato dos Metalúrgicos que, a mando do PCP e da Intersindical, ameaçaram e agrediram) e posteriormente foram eleitos novos corpos gerentes numa lista composta por elementos do MRPP, do PS e independentes. Foi um facto muito importante no movimento sindical, percursor do aniquilamento do controlo do PCP e da Intersindical nos sindicatos. Pode dizer-se que foi o início da era do sindicalismo democrático. Em diversos bancos foram eleitas democraticamente Comissões de Trabalhadores e Comissões Sindicais compostas por elementos do MRPP e do PS. O BPA foi pioneiro, tendo sido eleita em Junho de 1975 uma Comissão de Trabalhadores (zona sul) composta por 4 elementos do MRPP, 7 do PS e 1 independente (que mais tarde se descobriu ser um infiltrado do PCP). Nesses tempos o poder das Comissões de Trabalhadores era grande a todos os níveis, desde o controlo do crédito e das decisões relativas ao pessoal, até às lutas pela readmissão de pessoas injustiçadas no passado e aos famosos processos de saneamento. A aliança MRPP/PS (à qual o PCP chamava "santa aliança") teve um papel preponderante nos anos 1974/75/76, tendo começado a desfazer-se em 1977. O PS ganhou as eleições e o fascínio do poder político fez-se exercer a todos os níveis. Não foram muitos os que resistiram. A propósito do papel inequivocamente vanguardista dos bancários, antes e depois do 25 de Abril, não posso deixar de referir uma frase dita por Arnaldo Matos numa Sessão de Esclarecimento para bancários realizada no Clube Rio de Janeiro no Bairro Alto. “Ainda a classe operária não sonha que vai lutar, já os bancários estão na rua”.
Outros tempos...

domingo, 19 de setembro de 2010

A segurança

No MRPP não havia nenhuma actividade nem nenhum local que não tivessem um grupo de camaradas encarregues de fazer a segurança. Nas manifestações havia segurança, nas colagens havia segurança, nos comícios havia segurança, nas sedes havia segurança, em todas as actividades havia segurança. As pessoas eram destacadas pelas diversas organizões/células para fazerem segurança. Quanto maior e mais importante era o evento maior era o número de camaradas necessários. Ninguém se escapava e até havia quem preferisse essa função. É que não nos obrigava a “dar o corpo ao manifesto”, era só observar, avisar e, em muitos casos dar de sola quando a coisa aquecia. Por exemplo, numa colagem de cartazes os elementos destacados para a segurança espalhavam-se pelas imediações do local, geralmente em grupos de dois, vigiando e avisando de alguma presença inoportuna (outros partidos, polícia, COPCON). Obviamente quem ficava na segurança não tinha de carregar com baldes, trinchas e cartazes e podia escapulir-se mais depressa em caso de confronto. Havia até quem ficasse dentro de um carro a escutar as mensagens transmitidas via rádio pelos carros do COPCON, numa determinada frequência. As mensagens eram transmitidas segundo o alfabético radiotelefónido internacional, em que cada letra da palavra que se pretende transmitir corresponde à primeira letra da palavra do código internacional começada por essa letra. Quando os carros patrulha do COPCON avistavam grupos do MRPP transmitiam Mike Romeo Papa Papa e o local. Quem estava dentro do carro à escuta dava o alerta e as brigadas de colagem podiam “desaparecer”. Durante muitos anos esteve escrita numa parede do ex-Banco de Angola na Rua da Prata a palavra –Boi- e penso que também o símbolo do MRPP. Era o início da palavra de ordem “boicote activo à farsa eleitoral” (eleições de 25.04.1975 em que o MRPP foi impedido de participar). A pintura foi abruptamente interrompida por um aviso captado por um carro que estava numa rua perto, e a pintura foi largada. Eu, quando podia, optava por fazer segurança, pois era mais seguro (podia-se sair de fininho, nunca se era apanhado com a mão na massa), além de que até dava para conversar.
Claro que nas Sedes também havia segurança. As Sedes nunca fechavam, funcionavam 24h por dia e era preciso estar sempre preparado para eventuais ataques, que aconteciam de facto. Na Sede da Bica havia uma escala se segurança composta por elementos de todas as organizações. Passei muitas noites sentada no parapeito de uma água-furtada que dava para a Calçada do Combro a vigiar a rua. É certo que havia turnos, que se podia dormir, que havia uma camarata tipo tropa. Mas era tão horrível, tão mal cheirosa, tão asfixiante, que nunca lá dormi. Para mim, se era para não dormir não valia a pena fingir que ia dormir. Preferia ficar toda a noite e tinha sempre companhia. Boas conversas! E, de manhãzinha, era sair a correr, comer um bolito quente na padaria, ir a casa tomar banho e plantar-me no meu local de trabalho supostamente fresca como uma alface, para, ao fim do dia voltar tudo ao mesmo. Fiz muitas directas, muitas vezes mais do que uma directa seguida. Coisas que aos 25 anos não fazem mossa... Que saudades! Da resistência física...
Muitas vezes havia ataques do PCP/UDP, etc. Era função de quem estava a fazer segurança alertar para movimentações suspeitas na rua. Nessas ocasiões fechavam-se as portas da Sede e eram distribuídas “armas” (matracas, paus, pedras, etc.). Que romântico! Hoje qualquer gang de miúdos tem armas de fogo, armas brancas, sprays, etc.
Eu nunca presenciei nenhum ataque à Sede da Bica. Só os rescaldos. Presenciei diversos ataques a manifestações e a colagens, mas isso fica para outro post.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

As sedes

Em Lisboa havia várias Sedes do MRPP – tudo edifícios ocupados:
· A Sede central, na Av. Álvares Cabral nº 19, onde funcionavam o Comité Central e os departamentos que estavam na dependência do mesmo, como a Comissão de Imprensa, o jornal Luta Popular, o Departamento da Cultura, etc.
· A Sede da organização dos estudantes – FEML – numa rua perto do Saldanha.
· A Sede do Largo de Alcântara, que aliás foi a primeira Sede do MRPP em Lisboa.
· A Sede da Bica na Calçada do Combro, onde estavam sediadas as organizações das empresas de serviços (banca, seguros, funcionários públicos, CTT, TLP, a distribuição do Luta Popular, o Departamento Sindical). Era a Sede do Comité Regional de Lisboa e do Comité do Concelho de Lisboa.
· Havia também a Sede do Secretariado das Comissões de Trabalhadores na Av. Duque de Loulé.
· Em alguns bairros e na periferia de Lisboa (Pontinha, Alto do Pina, Carcavelos, etc.) também havia Sedes.

As Sedes eram estanques.
Uma vez que a Sede dos bancários era na Bica, os bancários não se deslocavam às outras Sedes, a menos que também militassem numa outra organização que estivesse agregada a uma outra Sede (a residência, por exemplo). Era possível militar-se ao mesmo tempo na residência e na empresa. Também era possível, dentro da mesma Sede, pertencer-se a mais do que uma organização. Por exemplo, a uma célula de empresa (do BPA), ao Comité dos Bancários, ao Comité do Concelho (por inerência ou por cooptação) e ao Comité Regional (idem).
Um bom militante tinha a obrigação de ir à sua Sede todos os dias, e o dever de ocupar todos os seus tempos livres com o trabalho partidário. Nas Sedes havia sempre muito que fazer. Quando aderíamos a um partido como o MRPP, a primeira prioridade da vida passava a ser o partido. Tudo o resto passava para segundo lugar: família, amigos, prazeres até mesmo o vestir-se com maior cuidado.
Não era suposto nem tolerável ir para a Sede fazer sala, a pessoa ia à Sede para trabalhar, e isso incluía a discussão política mas também a manutenção da Sede em todos os seus aspectos, desde a limpeza até à segurança. Essa obrigação diária de ir à Sede transformava-se numa espécie de vício, de compulsão, como se não houvesse mais nenhum outro sítio para onde ir, mais nada para fazer. Era como se fosse “pecado” sair do emprego, buscar os filhos e ir logo para casa ou dar uma volta. Isso era altamente criticável. Muitas vezes dormia-se na Sede porque as horas iam passando e já não valia a pena voltar para casa ou já não havia transportes. Era fácil inventar-se coisas para fazer: cartazes, comunicados, envelopes, pinturas e por fim segurança. Na Bica havia sempre muita segurança para fazer. Lembro-me bem de passar algumas noites sentada no parapeito de uma água-furtada a “vigiar” a Calçada do Combro, vendo se tudo estava calmo ou se havia o perigo de algum ataque inimigo. Eu nunca assisti a nenhum, excepto aquele do 28 de Maio de 1975 em que todas as Sedes do MRPP foram atacadas simultaneamente pelo COPCON tendo sido presas mais de 500 pessoas, mas isso fica para depois. Contudo a Sede da Bica foi atacada algumas vezes.
Era como uma praxe parar num sítio onde houvesse uma Sede, mas não se passava da recepção, não se subia a escada, não se entrava por ali adentro. Apenas um “olá camaradas” e uma vista de olhos pelos cartazes e comunicados afixados. Nesse sentido as Sedes eram muito estanques, cada uma independente das outras.
Mas também era assim no interior de cada uma das Sedes. Cada organização tinha a sua própria sala, e não havia “visitas sociais” às outras salas. Os bancários não iam para a sala dos seguros, nem estes iam para a sala dos CTTs, etc., nem tão-pouco para aquelas salas comuns a todas as organizações (Departamento Sindical, Comité do Concelho). Só lá íamos se fossemos chamados ou se tivéssemos algo de importante a dizer ou a fazer.Por exemplo, como bancária, a minha sala era a dos bancários, isto numa altura em que já tinha responsabilidades, era vice-secretária do Comité dos Bancários e fazia parte do Comité do Concelho de Lisboa e sendo eu casada com uma pessoa que pertencia a outra organização cuja sala era no mesmo corredor, 3 ou 4 portas mais à frente, acho que os dedos duma mão são de mais para contar as vezes que eu entrei nessa sala. E, entrar por entrar, nunca entrei em nenhuma sala. Havia um perfeito sigilo dentro das organizações. As salas estavam fechadas e só as pessoas da respectiva organização é que lá entravam, ninguém o fazendo sem bater à porta. O que lá se discutia não vinha cá para fora. Ninguém lá ia tirar uma folha ou uma borrachinha.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Os porquês

No MRPP não se podia dizer: “talvez”... não era aconselhável dizer-se: “porquê”?
Talvez fosse possível quando se tratava de coisas banais, sem importância. Mas naquelas coisas fundamentais... “será que, num determinado caso concreto, os trabalhadores têm razão?” Claro que os trabalhadores tinham sempre razão! Não se podia nunca duvidar disso.
Um camarada nunca questionava. Nunca se devia questionar. Para muitas pessoas do MRPP e, no início, se calhar para mim também, era muito confuso perceber, a nível ideológico, por que razão o MRPP era tão diferente do PCP. Por que razão o PCP era inimigo? O que significava ser “revisionista”[1]? Já era mais fácil entender o que significava ser social-fascista (socialista nas palavras, fascista no actos) devido às posições que o PCP tomou, nomeadamente na hostilização e perseguição de todos os que não seguiam cegamente as suas posições, no boicote às lutas e reivindicações que, segundo eles, punham em causa as conquistas democráticas – era preciso trabalhar mais, ganhar o mesmo, tudo em prol da revolução, e nunca ousar discordar. Quem o fizesse era imediatamente apelidado de fascista, contra-revolucionário, um alvo a abater. Para o PCP o lema era “quem não está comigo está contra mim”. Muitos simpatizantes do MRPP não compreendiam por que razão a UDP era também um inimigo ? Por que razão todos os outros MLs (Marxistas-Leninistas) eram inimigos, porquê? Era difícil de compreender. Mas perguntar “porquê” era, por assim dizer, assinar uma sentença de “morte”, e passar de imediato a ser considerado como “linha negra” (por oposição a “linha vermelha”, a correcta, a da revolução) . Alguém, numa reunião atrever-se a dizer, com toda a sua boa-fé e vontade de ser esclarecido “não percebo por que razão eles têm que ser combatidos”.... era impensável! Só um novato ousaria fazê-lo e o camarada que o tinha levado ficava bastante mal colocado. Aliás, a UDP era chamada de UDPide, e quem se referisse aos seus militantes como UDPs e não como UDPides ficava logo numa posição desconfortável.
Não se podia/devia perguntar porquê. Era ponto assente que se alguém dizia que não compreendia bem, então era porque, de facto, bem lá a nível do subconsciente, já estava a questionar. No fundo também havia o “ou és por mim ou és contra mim” .
No MRPP, quando recebíamos uma directiva, uma tarefa, tínhamos sempre que dizer que sim, que a íamos pôr em prática, mesmo que soubéssemos de antemão que era muito difícil, mesmo impraticável, que não dependia só de nós ou que era errada. Mesmo que soubéssemos que não a íamos levar à prática, tínhamos/devíamos sempre dizer que sim.
[1] O PCP era revisionista porque em 1956, no XX Congresso do PCUS, tinha apoiado e adoptado a revisão das teses marxistas-leninistas desvirtuando assim os ideais de Revolução de Outubro.