quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A moral proletária I

Pensar, agir e viver como revolucionários era uma palavra de ordem pela qual os militantes do MRPP deviam pautar a sua conduta moral. A moral proletária, apanágio dos comunistas, devia estar inteiramente subordinada aos interesses da luta de classes aos quais, por sua vez, deviam estar subordinados todos os outros interesses. Os comportamentos relacionados com a moral, com os costumes, não eram uma questão considerada acima da sociedade e das classes sociais, não eram uma consequência do temperamento peculiar dos indivíduos, não eram transversais, mas sim marcas de classe que serviam os interesses de uma determinada classe social. Havia uma moral proletária e uma moral burguesa.
No MRPP eram escondidas todas as relações, por assim dizer, amorosas. Fossem elas namoro, casamento, e principalmente aventuras ou casos. E quando uma destas era descoberta isso era discutido nos órgãos respectivos e tomadas medidas.
Por exemplo eu, membro do Comité dos Bancários era casada com um militante membro de outra organização. Ambas as organizações funcionavam na mesma sede, as respectivas salas eram no mesmo corredor. Porém, muito poucas pessoas sabiam que nós éramos casados. Não havia o hábito de um ficar à espera do outro nem de, numa conversa de corredor, falar dos filhos. Se alguém nos "apanhasse" diriam logo que nos estávamos a desviar dos objectivos primordiais da luta de classes.
É óbvio que havia namoros que começavam, mas isso era sempre escondido. Dentro das sedes as pessoas faziam de conta…
Claro que havia casos, aventuras, flirts… muitos. Tudo escondido. Era tudo uma grande hipocrisia. Era a defesa da fachada. A nível das hierarquias máximas então era lindo ver "a família feliz", marido mulher, filhos todos sentadinhos no trono dos comícios (e só esses "podiam ter" família), quando, à boca pequena, se falava que no dia-a-dia tudo era diferente. É bem velhinha a história do patrão que tem um caso com a secretária! Quem mais proclamava, era quem mais falhava.
Tal como o assunto dos automóveis. Os bancários eram tidos por ganharem bem, terem bons carros, etc. A classe operária não tinha nada disso e os dirigentes da classe operária tinham de estar ao nível dela. Assim, o secretário-geral deslocava-se num Mini. Mas, às vezes requisitava o automóvel topo de gama de um bancário para certos encontros.
E, como não podia deixar de ser, no MRPP, como na sociedade em geral, a mulher era sempre mais visada.
Pensar, agir e viver como revolucionários foi uma decisão do Comité Central do MRPP (na altura Comité Lenine) datada de Outubro de 1972, que teve por base um caso extraconjugal nas fileiras do Movimento: "…um quadro do nosso Movimento entreteve relações pessoais ínvias com uma camarada casada…" e "… reciprocamente, a camarada em questão entreteve com ele o mesmo tipo de relações íntimas tortuosas…".
Não quero, de forma alguma, defender ou apoiar a manutenção de relações extraconjugais. O que não aceito é o facto de serem definidas com o recurso a adjectivos que me fazem lembrar os tempos em que o adultério era crime, mas em que apenas as mulheres eram punidas. Aliás, para o Comité Central do MRPP não interessava a situação matrimonial do camarada homem, apenas levando em consideração que a camarada mulher era casada.
O mesmo tipo de moral retrógrada, castradora e machista muitas vezes defendida também pela Igreja: "a mulher tem de estar sempre muito lavada", foram a palavras de um padre na celebração de um casamento a que eu assisti já no limiar do século XXI.
Quanto a este caso, o Comité Central propôs a aplicação de uma sanção nunca inferior à destituição do cargo, sendo da competência do escalão respectivo o levá-la à prática.
Viviam-se tempos de clandestinidade em que os nomes dos envolvidos não podiam ser tornados públicos, nem sequer no seio do MRPP.
E aqui fica uma pergunta, será que a sanção aplicada foi igual para o homem e para a mulher?
Talvez com a leitura do post seguinte "A moral proletária II" em que relatarei alguns casos concretos em que participei se possa antecipar uma resposta a esta pergunta.