domingo, 19 de setembro de 2010

A segurança

No MRPP não havia nenhuma actividade nem nenhum local que não tivessem um grupo de camaradas encarregues de fazer a segurança. Nas manifestações havia segurança, nas colagens havia segurança, nos comícios havia segurança, nas sedes havia segurança, em todas as actividades havia segurança. As pessoas eram destacadas pelas diversas organizões/células para fazerem segurança. Quanto maior e mais importante era o evento maior era o número de camaradas necessários. Ninguém se escapava e até havia quem preferisse essa função. É que não nos obrigava a “dar o corpo ao manifesto”, era só observar, avisar e, em muitos casos dar de sola quando a coisa aquecia. Por exemplo, numa colagem de cartazes os elementos destacados para a segurança espalhavam-se pelas imediações do local, geralmente em grupos de dois, vigiando e avisando de alguma presença inoportuna (outros partidos, polícia, COPCON). Obviamente quem ficava na segurança não tinha de carregar com baldes, trinchas e cartazes e podia escapulir-se mais depressa em caso de confronto. Havia até quem ficasse dentro de um carro a escutar as mensagens transmitidas via rádio pelos carros do COPCON, numa determinada frequência. As mensagens eram transmitidas segundo o alfabético radiotelefónido internacional, em que cada letra da palavra que se pretende transmitir corresponde à primeira letra da palavra do código internacional começada por essa letra. Quando os carros patrulha do COPCON avistavam grupos do MRPP transmitiam Mike Romeo Papa Papa e o local. Quem estava dentro do carro à escuta dava o alerta e as brigadas de colagem podiam “desaparecer”. Durante muitos anos esteve escrita numa parede do ex-Banco de Angola na Rua da Prata a palavra –Boi- e penso que também o símbolo do MRPP. Era o início da palavra de ordem “boicote activo à farsa eleitoral” (eleições de 25.04.1975 em que o MRPP foi impedido de participar). A pintura foi abruptamente interrompida por um aviso captado por um carro que estava numa rua perto, e a pintura foi largada. Eu, quando podia, optava por fazer segurança, pois era mais seguro (podia-se sair de fininho, nunca se era apanhado com a mão na massa), além de que até dava para conversar.
Claro que nas Sedes também havia segurança. As Sedes nunca fechavam, funcionavam 24h por dia e era preciso estar sempre preparado para eventuais ataques, que aconteciam de facto. Na Sede da Bica havia uma escala se segurança composta por elementos de todas as organizações. Passei muitas noites sentada no parapeito de uma água-furtada que dava para a Calçada do Combro a vigiar a rua. É certo que havia turnos, que se podia dormir, que havia uma camarata tipo tropa. Mas era tão horrível, tão mal cheirosa, tão asfixiante, que nunca lá dormi. Para mim, se era para não dormir não valia a pena fingir que ia dormir. Preferia ficar toda a noite e tinha sempre companhia. Boas conversas! E, de manhãzinha, era sair a correr, comer um bolito quente na padaria, ir a casa tomar banho e plantar-me no meu local de trabalho supostamente fresca como uma alface, para, ao fim do dia voltar tudo ao mesmo. Fiz muitas directas, muitas vezes mais do que uma directa seguida. Coisas que aos 25 anos não fazem mossa... Que saudades! Da resistência física...
Muitas vezes havia ataques do PCP/UDP, etc. Era função de quem estava a fazer segurança alertar para movimentações suspeitas na rua. Nessas ocasiões fechavam-se as portas da Sede e eram distribuídas “armas” (matracas, paus, pedras, etc.). Que romântico! Hoje qualquer gang de miúdos tem armas de fogo, armas brancas, sprays, etc.
Eu nunca presenciei nenhum ataque à Sede da Bica. Só os rescaldos. Presenciei diversos ataques a manifestações e a colagens, mas isso fica para outro post.