sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

As sedes

Em Lisboa havia várias Sedes do MRPP – tudo edifícios ocupados:
· A Sede central, na Av. Álvares Cabral nº 19, onde funcionavam o Comité Central e os departamentos que estavam na dependência do mesmo, como a Comissão de Imprensa, o jornal Luta Popular, o Departamento da Cultura, etc.
· A Sede da organização dos estudantes – FEML – numa rua perto do Saldanha.
· A Sede do Largo de Alcântara, que aliás foi a primeira Sede do MRPP em Lisboa.
· A Sede da Bica na Calçada do Combro, onde estavam sediadas as organizações das empresas de serviços (banca, seguros, funcionários públicos, CTT, TLP, a distribuição do Luta Popular, o Departamento Sindical). Era a Sede do Comité Regional de Lisboa e do Comité do Concelho de Lisboa.
· Havia também a Sede do Secretariado das Comissões de Trabalhadores na Av. Duque de Loulé.
· Em alguns bairros e na periferia de Lisboa (Pontinha, Alto do Pina, Carcavelos, etc.) também havia Sedes.

As Sedes eram estanques.
Uma vez que a Sede dos bancários era na Bica, os bancários não se deslocavam às outras Sedes, a menos que também militassem numa outra organização que estivesse agregada a uma outra Sede (a residência, por exemplo). Era possível militar-se ao mesmo tempo na residência e na empresa. Também era possível, dentro da mesma Sede, pertencer-se a mais do que uma organização. Por exemplo, a uma célula de empresa (do BPA), ao Comité dos Bancários, ao Comité do Concelho (por inerência ou por cooptação) e ao Comité Regional (idem).
Um bom militante tinha a obrigação de ir à sua Sede todos os dias, e o dever de ocupar todos os seus tempos livres com o trabalho partidário. Nas Sedes havia sempre muito que fazer. Quando aderíamos a um partido como o MRPP, a primeira prioridade da vida passava a ser o partido. Tudo o resto passava para segundo lugar: família, amigos, prazeres até mesmo o vestir-se com maior cuidado.
Não era suposto nem tolerável ir para a Sede fazer sala, a pessoa ia à Sede para trabalhar, e isso incluía a discussão política mas também a manutenção da Sede em todos os seus aspectos, desde a limpeza até à segurança. Essa obrigação diária de ir à Sede transformava-se numa espécie de vício, de compulsão, como se não houvesse mais nenhum outro sítio para onde ir, mais nada para fazer. Era como se fosse “pecado” sair do emprego, buscar os filhos e ir logo para casa ou dar uma volta. Isso era altamente criticável. Muitas vezes dormia-se na Sede porque as horas iam passando e já não valia a pena voltar para casa ou já não havia transportes. Era fácil inventar-se coisas para fazer: cartazes, comunicados, envelopes, pinturas e por fim segurança. Na Bica havia sempre muita segurança para fazer. Lembro-me bem de passar algumas noites sentada no parapeito de uma água-furtada a “vigiar” a Calçada do Combro, vendo se tudo estava calmo ou se havia o perigo de algum ataque inimigo. Eu nunca assisti a nenhum, excepto aquele do 28 de Maio de 1975 em que todas as Sedes do MRPP foram atacadas simultaneamente pelo COPCON tendo sido presas mais de 500 pessoas, mas isso fica para depois. Contudo a Sede da Bica foi atacada algumas vezes.
Era como uma praxe parar num sítio onde houvesse uma Sede, mas não se passava da recepção, não se subia a escada, não se entrava por ali adentro. Apenas um “olá camaradas” e uma vista de olhos pelos cartazes e comunicados afixados. Nesse sentido as Sedes eram muito estanques, cada uma independente das outras.
Mas também era assim no interior de cada uma das Sedes. Cada organização tinha a sua própria sala, e não havia “visitas sociais” às outras salas. Os bancários não iam para a sala dos seguros, nem estes iam para a sala dos CTTs, etc., nem tão-pouco para aquelas salas comuns a todas as organizações (Departamento Sindical, Comité do Concelho). Só lá íamos se fossemos chamados ou se tivéssemos algo de importante a dizer ou a fazer.Por exemplo, como bancária, a minha sala era a dos bancários, isto numa altura em que já tinha responsabilidades, era vice-secretária do Comité dos Bancários e fazia parte do Comité do Concelho de Lisboa e sendo eu casada com uma pessoa que pertencia a outra organização cuja sala era no mesmo corredor, 3 ou 4 portas mais à frente, acho que os dedos duma mão são de mais para contar as vezes que eu entrei nessa sala. E, entrar por entrar, nunca entrei em nenhuma sala. Havia um perfeito sigilo dentro das organizações. As salas estavam fechadas e só as pessoas da respectiva organização é que lá entravam, ninguém o fazendo sem bater à porta. O que lá se discutia não vinha cá para fora. Ninguém lá ia tirar uma folha ou uma borrachinha.