segunda-feira, 6 de abril de 2009

Os porquês

No MRPP não se podia dizer: “talvez”... não era aconselhável dizer-se: “porquê”?
Talvez fosse possível quando se tratava de coisas banais, sem importância. Mas naquelas coisas fundamentais... “será que, num determinado caso concreto, os trabalhadores têm razão?” Claro que os trabalhadores tinham sempre razão! Não se podia nunca duvidar disso.
Um camarada nunca questionava. Nunca se devia questionar. Para muitas pessoas do MRPP e, no início, se calhar para mim também, era muito confuso perceber, a nível ideológico, por que razão o MRPP era tão diferente do PCP. Por que razão o PCP era inimigo? O que significava ser “revisionista”[1]? Já era mais fácil entender o que significava ser social-fascista (socialista nas palavras, fascista no actos) devido às posições que o PCP tomou, nomeadamente na hostilização e perseguição de todos os que não seguiam cegamente as suas posições, no boicote às lutas e reivindicações que, segundo eles, punham em causa as conquistas democráticas – era preciso trabalhar mais, ganhar o mesmo, tudo em prol da revolução, e nunca ousar discordar. Quem o fizesse era imediatamente apelidado de fascista, contra-revolucionário, um alvo a abater. Para o PCP o lema era “quem não está comigo está contra mim”. Muitos simpatizantes do MRPP não compreendiam por que razão a UDP era também um inimigo ? Por que razão todos os outros MLs (Marxistas-Leninistas) eram inimigos, porquê? Era difícil de compreender. Mas perguntar “porquê” era, por assim dizer, assinar uma sentença de “morte”, e passar de imediato a ser considerado como “linha negra” (por oposição a “linha vermelha”, a correcta, a da revolução) . Alguém, numa reunião atrever-se a dizer, com toda a sua boa-fé e vontade de ser esclarecido “não percebo por que razão eles têm que ser combatidos”.... era impensável! Só um novato ousaria fazê-lo e o camarada que o tinha levado ficava bastante mal colocado. Aliás, a UDP era chamada de UDPide, e quem se referisse aos seus militantes como UDPs e não como UDPides ficava logo numa posição desconfortável.
Não se podia/devia perguntar porquê. Era ponto assente que se alguém dizia que não compreendia bem, então era porque, de facto, bem lá a nível do subconsciente, já estava a questionar. No fundo também havia o “ou és por mim ou és contra mim” .
No MRPP, quando recebíamos uma directiva, uma tarefa, tínhamos sempre que dizer que sim, que a íamos pôr em prática, mesmo que soubéssemos de antemão que era muito difícil, mesmo impraticável, que não dependia só de nós ou que era errada. Mesmo que soubéssemos que não a íamos levar à prática, tínhamos/devíamos sempre dizer que sim.
[1] O PCP era revisionista porque em 1956, no XX Congresso do PCUS, tinha apoiado e adoptado a revisão das teses marxistas-leninistas desvirtuando assim os ideais de Revolução de Outubro.