O meu desamor pelo MRPP começou no dia em que pela primeira vez fiquei cara a cara com o Arnaldo Matos. Foi em fins de 1977.
O Comité Central tinha decido que a editora Vento de Leste iria publicar o 5º volume das Obras Escolhidas de Mao Tsé Tung. O livro, inédito, deveria sair por volta de 7 de Novembro como homenagem aos 60 anos da Revolução de Outubro.
Alguns dias antes, estando já o livro no prelo, a empresa que estava a imprimi-lo exigiu que o MRPP (nessa altura já PCTP/MRPP) apresentasse uma garantia bancária de 1200 contos para que a edição fosse liberada e os livros distribuídos.
E quem melhor que os camaradas bancários poderia resolver o problema?
Fui então convocada, às 2 da manhã de um Domingo, para estar às 10 da manhã desse mesmo Domingo na Sede Central do Partido na Av. Álvares Cabral. A convocatória foi feita a dois camaradas, ao secretário do Comité dos Bancários e a mim, vice-secretária do comité e secretária da célula do BPA, que acabara de terminar um mandato de 2 anos na Comissão de Trabalhadores do BPA. Depois de 2 longas horas de espera na rua fomos conduzidos a uma sala onde estava o Arnaldo Matos e outro membro do Comité Central. Feita uma breve exposição da situação foi-nos dito que a nós como bancários caberia a resolução do problema, e a mim foi-me especificamente dada a tarefa de, no dia seguinte, junto da Secção de Garantias do BPA, obter a dita garantia bancária de 1200 contos. Tarefa fácil...
No BPA o MRPP tinha uma boa implantação. Tínhamos desenvolvido um trabalho importante nas Comissões de Trabalhadores e Sindical em aliança com o PS e conseguido vitórias muito significativas que nos tinham granjeado um grande apoio. Tínhamos um número considerável de delegados sindicais e os nossos militantes gozavam da simpatia geral dos trabalhadores. O ambiente era favorável ao desenvolvimento do nosso trabalho, porém... havia algumas secções que nos eram hostis. Havia outros partidos e outras convicções. E havia, apesar de tudo, as hierarquias, as normas bancárias. Ora, a secção de Garantias era no BPA aquilo a que se chamava um feudo da UDP. Tarefa fácil...
Ao ser incumbida de tal tarefa vi, de repente, "o mar ficar mais alto do que a terra", porém apenas disse que na secção de Garantias do BPA havia dois delegados sindicais UDPides (sic) e que iria ser difícil tratar do assunto sem que eles soubessem. Era a época do controlo operário; os delegados sindicais e as subcomissões de trabalhadores tinham acesso a toda a documentação (propostas, listagens, etc.).
O Arnaldo Matos interrompeu-me imediata e abruptamente, levantou-se, deu um valente murro na mesa e berrando que eu estava contra a linha do partido e que o meu objectivo era impedir a saída do livro, mandou-nos sair da sala, que ele próprio iria resolver a questão. De facto resolveu e o livro saiu a tempo e horas. Fê-lo recorrendo a amigos/conterrâneos, altamente colocados, pessoas cuja conotação com o “antigamente” era bem conhecida... Pessoas a quem convinha, naqueles tempos conturbados em que os órgãos dos trabalhadores tinham muito poder, serem vistas ao lado de quem mais dava nas vistas. Claro que essas pessoas nunca souberam do que se passara entre mim e o Arnaldo Matos e, numa de cumplicidade asquerosa, vieram confidenciar-me que tinham feito um favor ao Arnaldo Matos e que ele até lhes tinha enviado exemplares do livro como reconhecimento.
Ainda hoje (2009) lamento as horas que não dormi naquele Domingo de manhã e as 2 horas de frio à porta da sede do MRPP.
Na altura o que pensei foi mesmo “ovos que eu ponha nunca mais comes”. Ainda hoje quando penso neste episódio é exactamente esta a frase que me ocorre. Para mim foi o princípio do desamor. Poucos meses depois tudo deixou de fazer sentido e abandonei o MRPP. Uns tempos depois (meados de 1978) houve uma cisão na organização regional de Lisboa, com a saída/expulsão de cerca de 200 militantes. A influência do MRPP caiu a pique até àquilo que é hoje em dia.
O Comité Central tinha decido que a editora Vento de Leste iria publicar o 5º volume das Obras Escolhidas de Mao Tsé Tung. O livro, inédito, deveria sair por volta de 7 de Novembro como homenagem aos 60 anos da Revolução de Outubro.
Alguns dias antes, estando já o livro no prelo, a empresa que estava a imprimi-lo exigiu que o MRPP (nessa altura já PCTP/MRPP) apresentasse uma garantia bancária de 1200 contos para que a edição fosse liberada e os livros distribuídos.
E quem melhor que os camaradas bancários poderia resolver o problema?
Fui então convocada, às 2 da manhã de um Domingo, para estar às 10 da manhã desse mesmo Domingo na Sede Central do Partido na Av. Álvares Cabral. A convocatória foi feita a dois camaradas, ao secretário do Comité dos Bancários e a mim, vice-secretária do comité e secretária da célula do BPA, que acabara de terminar um mandato de 2 anos na Comissão de Trabalhadores do BPA. Depois de 2 longas horas de espera na rua fomos conduzidos a uma sala onde estava o Arnaldo Matos e outro membro do Comité Central. Feita uma breve exposição da situação foi-nos dito que a nós como bancários caberia a resolução do problema, e a mim foi-me especificamente dada a tarefa de, no dia seguinte, junto da Secção de Garantias do BPA, obter a dita garantia bancária de 1200 contos. Tarefa fácil...
No BPA o MRPP tinha uma boa implantação. Tínhamos desenvolvido um trabalho importante nas Comissões de Trabalhadores e Sindical em aliança com o PS e conseguido vitórias muito significativas que nos tinham granjeado um grande apoio. Tínhamos um número considerável de delegados sindicais e os nossos militantes gozavam da simpatia geral dos trabalhadores. O ambiente era favorável ao desenvolvimento do nosso trabalho, porém... havia algumas secções que nos eram hostis. Havia outros partidos e outras convicções. E havia, apesar de tudo, as hierarquias, as normas bancárias. Ora, a secção de Garantias era no BPA aquilo a que se chamava um feudo da UDP. Tarefa fácil...
Ao ser incumbida de tal tarefa vi, de repente, "o mar ficar mais alto do que a terra", porém apenas disse que na secção de Garantias do BPA havia dois delegados sindicais UDPides (sic) e que iria ser difícil tratar do assunto sem que eles soubessem. Era a época do controlo operário; os delegados sindicais e as subcomissões de trabalhadores tinham acesso a toda a documentação (propostas, listagens, etc.).
O Arnaldo Matos interrompeu-me imediata e abruptamente, levantou-se, deu um valente murro na mesa e berrando que eu estava contra a linha do partido e que o meu objectivo era impedir a saída do livro, mandou-nos sair da sala, que ele próprio iria resolver a questão. De facto resolveu e o livro saiu a tempo e horas. Fê-lo recorrendo a amigos/conterrâneos, altamente colocados, pessoas cuja conotação com o “antigamente” era bem conhecida... Pessoas a quem convinha, naqueles tempos conturbados em que os órgãos dos trabalhadores tinham muito poder, serem vistas ao lado de quem mais dava nas vistas. Claro que essas pessoas nunca souberam do que se passara entre mim e o Arnaldo Matos e, numa de cumplicidade asquerosa, vieram confidenciar-me que tinham feito um favor ao Arnaldo Matos e que ele até lhes tinha enviado exemplares do livro como reconhecimento.
Ainda hoje (2009) lamento as horas que não dormi naquele Domingo de manhã e as 2 horas de frio à porta da sede do MRPP.
Na altura o que pensei foi mesmo “ovos que eu ponha nunca mais comes”. Ainda hoje quando penso neste episódio é exactamente esta a frase que me ocorre. Para mim foi o princípio do desamor. Poucos meses depois tudo deixou de fazer sentido e abandonei o MRPP. Uns tempos depois (meados de 1978) houve uma cisão na organização regional de Lisboa, com a saída/expulsão de cerca de 200 militantes. A influência do MRPP caiu a pique até àquilo que é hoje em dia.
