sexta-feira, 6 de março de 2009

Entrar para o MRPP

Entrar, como militante, para um partido como o MRPP não era como entrar para os partidos ditos burgueses, o PS, o PPD (PSD) ou CDS.
Os procedimentos para ser militante de um partido como o PS não seriam muito diferentes dos procedimentos para ingressar num clube de futebol ou numa qualquer colectividade. Preenchia-se uma proposta, com um ou vários proponentes, que depois ia a despacho numa reunião de Direcção, podendo ou não ser aprovada. Numa colectividade, é possível inscrever-se o filho que acabou de nascer; num partido dito burguês, basta que se declare aceitar os estatutos e programa do partido e se pague uma quota.
Ora, isso era impensável num partido como o MRPP, talvez mesmo até como o PCP. A entrada para o partido não era um processo burocrático, mas sim um processo meramente político.
No MRPP nenhuma pessoa entrava sem primeiro ter dado provas, ou seja, sem que a sua prática e o seu comportamento tivessem demonstrado que era guiada por uma linha de pensamento que estava de acordo com as linhas do partido e que era capaz de se entregar plenamente à tarefa de levar à prática esses ideais, relegando tudo o resto para segundo plano.
Entrar para um partido como o MRPP era como um casamento. Normalmente, as pessoas não se casam no dia em que se conhecem. As pessoas sentem-se atraídas, namoram, ficam noivas e depois casam. E, muitas vezes divorciam-se - foi o que aconteceu comigo no que diz respeito ao MRPP.
No MRPP havia simpatizantes, e havia militantes. Os simpatizantes eram aqueles que apoiavam o MRPP, que compravam semanalmente o jornal “Luta Popular”, que poderiam eventualmente fazer algumas tarefas simples a nível de locais de trabalho ou bairros, ir a algumas reuniões e contribuir com fundos, que engrossavam as manifestações e enchiam os comícios, mas, na sua esmagadora maioria não tinham vínculos nem obrigações de maior. Ser militante já não era para qualquer um. Não era chegar a uma sede ou junto de um outro militante e dizer “gosto do MRPP e quero inscrever-me”. Era preciso demonstrar que, quer na teoria quer na prática, aquela era a sua linha política, que a defenderia a todo o custo e que sempre agiria de acordo com ela. Um militante tinha também a obrigação de pagar uma quota mensal equivalente a um dia de salário, de participar em reuniões e de estar sempre disponível, custasse o que custasse, para todo e qualquer chamado.
No MRPP não havia fichas de inscrição nem ficheiros de militantes. Pelo menos, nunca vi nada disso....