Não podia mesmo deixar passar em claro o dia 11 de Março. Sim, o dia 11 de Março é também o dia do meu aniversário. Faço hoje 60 anos. Bonita idade? Porta de entrada para a porta de saída? Pois, o facto é que nunca consegui conhecer ninguém que fizesse anos neste dia. Ao longo dos anos, das fases da lua, de outras coisas que determinam os nascimentos, o dia 11 de Março deve ter sido muito pouco produtivo. E olhem que eu passei por muitas tarefas que me permitiam ter acesso a listagens com dados de identificação. Os meus olhos percorriam sempre as datas de nascimento à procura do dia 11 de Março e, sistematicamente, nada. Porém, quanto a eventos, bons e maus, já não se pode dizer o mesmo. Eu já fui a dois casamentos no dia dos meus anos, um em 1970 e outro em 1995. No de 1970, grávida, tive um acidente de automóvel a caminho da igreja. Nada de grave, apenas um pontitos no sobrolho. Numa outra vez, ao regressar do habitual jantar com a família, uma pedra grandalhona foi levantada por um carro que passou por mim e zás – foi parar em cima do meu carro (grupo óptico e guarda-lamas pró boneco). Foi bom não ter caído no pára-brisas pois podia ter aterrado numa das cabeças que iam dentro do carro. Isto para não falar daqueles pequenos “je ne sais quoi” que põem as pessoas a discutir nas reuniões familiares e que durante algum tempo tiveram lugar cativo nos almoços ou jantares dos meus anos. Alargando horizontes não podemos esquecer os atentados de 11 de Março de 2004 em Madrid com cerca de 200 mortos e 1700 feridos. Também todos os 11 de Março as nossas ruas reluzem com os polícias vestidos a rigor, com as fardas de festa, galões, cordões e medalhas ao peito. É que a 11 de Março celebra-se o dia da PSP. Mas vamos agora ao principal, ao que constitui a essência deste post: o 11 de Março de 1975 a que uns chamaram golpe seguido de um contragolpe e outros inventona, ou seja, um suposto golpe das forças de direita que legitimaria um contragolpe de esquerda destinado a repor a legalidade revolucionária. O que aconteceu foi o reforço do poder do PCP nos governos e chefias militares, a perseguição desenfreada liderada pelo COPCON de Otelo Saraiva de Carvalho a tudo e todos os que “punham em causa” as conquistas do 25 de Abril. Foi o PREC (período revolucionário em curso), foi a época das nacionalizações, do controlo operário, da reforma agrária, das ocupações, das expropriações, foi o caminhar até ao “Verão Quente de 75” em que largas camadas da população se levantaram contra este novo totalitarismo, culminando no 25 de Novembro de 1975 com a definitiva derrota do PCP que deixou de ser dono e senhor da revolução.
Nestes primórdios de 1975 a minha entrega ao MRPP era já inteira e indiscutível. Contudo a minha vida pessoal estava numa fase de mudança, um caos. No dia 11 de Março de 1975 aproveitei a hora de almoço para ir procurar uma casa para alugar. Foi em Benfica, num restaurante da Av. Gomes Pereira, que ouvi a notícia na rádio. O almoço acabou imediatamente e corri para o meu local de trabalho, a dependência do Saldanha do BPA. Nessa tarde os bancos já não abriram. Por toda a cidade os activistas iam-se concentrando e surgiram as manifestações espontâneas. Ninguém sabia o que ia acontecer e a actividade política fervia. Os bancos ficaram fechados alguns dias e a 14 de Março de 1975 saiu o decreto da nacionalização da banca. No meio de toda esta efervescência, no dia 13 de Março de 1975, o MRPP realizou um Comício no Pavilhão dos Desportos. A militância, o empolgamento, a combatividade costumeiros. Bandeiras esvoaçando, palavras de ordem, o pavilhão cheio. O último orador foi o Fernando Rosas, membro do Comité Central. Sim, o mesmo que hoje é deputado do Bloco de Esquerda e cuja oratória é bem conhecida. Também então era assim, grande e empolgante era a sua capacidade de liderança de massas. Nesses tempos havia sempre ameaças da CIA, da NATO, etc. Ora, o Fernando Rosas terminou o seu discurso dizendo que estava fundeada no Tejo uma esquadra da NATO que se preparava para invadir Lisboa, e que a única forma de o povo o impedir era com a ocupação dos locais de trabalho. Conclamou, portanto, todos a que saíssem do Pavilhão dos Desportos e fossem ocupar os seus locais de trabalho. Situando, devia ser para além da meia-noite. Hoje pode parecer um despropósito, mas naquela altura ele foi levado muito a sério. Eu e as pessoas que estavam comigo não fomos excepção e nem hesitámos em cumprir a ordem. Lembro-me que senti medo. Que pensei nos meus filhos, na minha vida, mas segui em frente. Não me lembro como, mas sei que fui para o meu local de trabalho, a dependência do Saldanha do BPA, eu mais uns quantos que lá trabalhavam, todos militantes ou simpatizantes do MRPP. O mais provável é termos telefonado ao gerente para ele ir abrir a porta pois lembro-me de, já madrugada, ele também estar lá presente. Daquela dúzia de pessoas eu era a única que tinha verdadeiras responsabilidades partidárias, portanto era a mim que cabia a liderança. Lembro-me de aos porquês do gerente ter respondido que se tratava de defender a independência nacional e que o objectivo final era a ditadura do proletariado, lembro-me da cara de susto dele. Não era uma pessoa adepta do anterior regime e não gostava do PCP, mas olhou para mim com uma cara... A verdade é que ele passou a noite connosco numa espera que não levou a nada. Tudo voltou ao mesmo quando amanheceu, o banco fechado até à nacionalização, manifestações, comícios, propaganda e uma esquadra da NATO que nunca invadiu Lisboa.
Nestes primórdios de 1975 a minha entrega ao MRPP era já inteira e indiscutível. Contudo a minha vida pessoal estava numa fase de mudança, um caos. No dia 11 de Março de 1975 aproveitei a hora de almoço para ir procurar uma casa para alugar. Foi em Benfica, num restaurante da Av. Gomes Pereira, que ouvi a notícia na rádio. O almoço acabou imediatamente e corri para o meu local de trabalho, a dependência do Saldanha do BPA. Nessa tarde os bancos já não abriram. Por toda a cidade os activistas iam-se concentrando e surgiram as manifestações espontâneas. Ninguém sabia o que ia acontecer e a actividade política fervia. Os bancos ficaram fechados alguns dias e a 14 de Março de 1975 saiu o decreto da nacionalização da banca. No meio de toda esta efervescência, no dia 13 de Março de 1975, o MRPP realizou um Comício no Pavilhão dos Desportos. A militância, o empolgamento, a combatividade costumeiros. Bandeiras esvoaçando, palavras de ordem, o pavilhão cheio. O último orador foi o Fernando Rosas, membro do Comité Central. Sim, o mesmo que hoje é deputado do Bloco de Esquerda e cuja oratória é bem conhecida. Também então era assim, grande e empolgante era a sua capacidade de liderança de massas. Nesses tempos havia sempre ameaças da CIA, da NATO, etc. Ora, o Fernando Rosas terminou o seu discurso dizendo que estava fundeada no Tejo uma esquadra da NATO que se preparava para invadir Lisboa, e que a única forma de o povo o impedir era com a ocupação dos locais de trabalho. Conclamou, portanto, todos a que saíssem do Pavilhão dos Desportos e fossem ocupar os seus locais de trabalho. Situando, devia ser para além da meia-noite. Hoje pode parecer um despropósito, mas naquela altura ele foi levado muito a sério. Eu e as pessoas que estavam comigo não fomos excepção e nem hesitámos em cumprir a ordem. Lembro-me que senti medo. Que pensei nos meus filhos, na minha vida, mas segui em frente. Não me lembro como, mas sei que fui para o meu local de trabalho, a dependência do Saldanha do BPA, eu mais uns quantos que lá trabalhavam, todos militantes ou simpatizantes do MRPP. O mais provável é termos telefonado ao gerente para ele ir abrir a porta pois lembro-me de, já madrugada, ele também estar lá presente. Daquela dúzia de pessoas eu era a única que tinha verdadeiras responsabilidades partidárias, portanto era a mim que cabia a liderança. Lembro-me de aos porquês do gerente ter respondido que se tratava de defender a independência nacional e que o objectivo final era a ditadura do proletariado, lembro-me da cara de susto dele. Não era uma pessoa adepta do anterior regime e não gostava do PCP, mas olhou para mim com uma cara... A verdade é que ele passou a noite connosco numa espera que não levou a nada. Tudo voltou ao mesmo quando amanheceu, o banco fechado até à nacionalização, manifestações, comícios, propaganda e uma esquadra da NATO que nunca invadiu Lisboa.
